: : O espírito estradeiro do amigo Alencar Moraes : :

Viajar é uma das melhores maneiras de espairecer a mente, o corpo, a alma e o coração. Além do mais, poder encontrar amigos, bater um papo, falar sobre gostos comuns e partilhar experiências é uma das melhores maneiras de sentir-se vivo. Há tempos venho falando que boa parte da parte boa de viajar já se perdeu. Hoje você viaja com horários marcados para embarque, desembarque, check in, check out, hora do café, do almoço, do jantar... e onde entra a parte do descanso, do relaxamento, da curtição...???

Enquanto a lobotomia social tomou conta de boa parte das pessoas, existem aquelas que viajam pelo simples prazer de viajar. O caminho torna-se mais prazeroso que a estada, em boa parte das vezes. Parar para apreciar uma paisagem, demorar para chegar, voltar sem pressa, descansar no destino, aproveitar a estada com amigos de verdade e saber que a recepção será sempre dada com um largo abraço e um enorme sorriso.

Poucos entendem e até mesmo repudiam as práticas e os costumes de quem tem suas raízes fortes na terra onde vive, mas que precisa sair para dar um "alô" para o mundo lá fora.

Chega mais, vou te apresentar um amigo.


O cara e o carro

O cara da foto é o amigo Alencar Moraes, já o carro da foto é mais do que conhecido entre os apaixonados automotivos. Ame-o ou odeie-o, o VW Sedan (vulgo, Fusca) é mais um protagonista desta história que reúne carros, amigos, viagens e muita descontração. A intervenção veio por intermédio dos amigos Rodrigo Beghetto e Hermes Cicilioti. Foram eles que me apresentaram a disposição que Alencar tem e que causa admiração àqueles que conhecem e valorizam a essência da cultura aircooled nacional.


Aqui cada adesivo tem um motivo. Faltou espaço nas malas para tanta viagem

Residente em Nazaré da Mata, Pernambuco, Alencar utiliza seu Volkswagen Sedan 1970 (um primeira série com motor 1.600 cc monocarburado, sem tapete, sem forração, sem carpete, sem rádio... conhecido como Enferrujado) para percorrer mais de 8.000 km durante um ano apenas em estradas. Para trajetos mais próximos, uma Kombi Cabrita em processo de estradeiramento (está sendo preparada para cair na estrada) é o carro que leva Alencar aos encontros em sua cidade e arredores quando seu Fusca está distante.



Alencar, o Enferrujado e sua Kombi Cabrita

A brincadeira toda começou em 2010 com os mais de 3.250 km que separam Nazaré da Mata/PE e Curitiba/PR sendo transpassados a bordo de um avião para participar do Dia Nacional do Fusca, promovido pela galera do RustedLive. Isso se repetiu em 2011, mas algumas ideias já estavam sendo plantadas. Em 2012 foi a vez do Enferrujado encarar a estrada durante uma semana para chegar na capital paranaense. O carro foi e voltou para Nazaré da Mata/PE sem grandes problemas.

Em 2013 o caminho a percorrer seria maior, assim como a estada do veículo. Voltou com o Enferrujado para aquela que seria a última edição do DNF em Curitiba sob a batuta do RustedLive. Voltou rodando para casa e logo mais pro meio do ano foi para o sudeste afim de participar do 3° Encontro HotVolks. Então Alencar rumou para Curitiba/PR e deixou o carro na casa de Rodrigo, voltando de avião para Pernambuco e retornar somente em Dezembro, onde buscaria o carro e seguiria para o VolksFriends, evento promovido pelo grupo PomerVolks, em Pomerode/SC, em comboio com a galera de Curitiba e para lá voltaria.

Em 2014 a peregrinação começou com a saída de sua cidade, indo de avião para Curitiba para participar com o Fusca do Camping RustedLive. Voltou para casa de avião e retornaria em Outubro para buscar o Fusca e ir participar do 6° Bubble Gum Treffen, em Águas de Lindóia. De lá rumou para o Piracicaba/SP, para se encontrar com os amigos do grupo Dropped Volks e logo depois para 4° Encontro HotVolks, em São Paulo/SP. Aproveitou, curtiu, conheceu e reviu os amigos, seguindo para Curitiba onde deixou o carro e voltou de avião para casa, pois em 2015 a rota de viagem já está traçada: Em Janeiro tem Camping Rusted Live e o carro fica em Curitiba. Em Março volta de avião para buscar o Enferrujado e seguir de comboio para o Brazilian Folks In Ride com a galera de Curitiba e leva o carro de volta para casa, voltando só em Setembro ou Outubro, rodando com o Enferrujado, para seguir para o HotVolks/SP, BGT/SP, VolksFriends/SC e daí começar o ano (e o ciclo) todo novamente em 2016.


Em Curitiba/PR, o Enferrujado junto com o Sedan'71 do amigo Rodrigo

Confesso que rola um pouco de inveja admiração por parte deste que vos escreve vendo a enorme disposição do amigo Alencar ao cruzar o país, a bordo de seu VW, conhecendo pessoas, encontrando amigos, reforçando laços, construindo novas amizades, aproveitando a viagem, tornando mais forte a conexão entre ele e seu Enferrujado, arrancando sorrisos por onde passa... pois todo aquele que se envolve com a cultura aircooled e conhece as raízes daquela que já foi e hoje luta para se manter como uma das mais acolhedoras, dispostas e envolventes sociedades mundiais de relacionamento automotivo, sabe que não há prazer maior dentro desta união que poder encontrar um amigo distante para agradecer-lhe pelas orientações, dicas, conselhos e até peças doadas!



No portão da cidade de Pomerode/SC e nos eventos que tornam a vida mais completa

Aqui cabe um parêntese deste ébrio (sim, a cachaça continua), velho (sim, a idade já pesa sobre os ombros) e chato (coisa normal) escriba: Tenho grandes amigos espalhados em todo o território nacional e alguns até fora daqui que sempre me ajudam em minhas dúvidas fusquísticas. Tenho com eles um compromisso moral e comigo um compromisso próprio de um dia encarar as estradas desse país para pagar-lhes uma cerveja, falar de Fuscas, dar risadas e aproveitar o que a vida tem de melhor: as amizades que ela proporciona.

Eu quero (e vou) de Fusca, assim como o amigo Alencar faz, assim como ele exemplifica com toda a simplicidade, tranquilidade e paciência. Coisas que só um fusqueiro tem e adquire com seus amados aircooleds. Não tem nada a ver com "cena automotiva", "grupo de facebook", "clube de frisinho" ou qualquer outro agrupamento narcisista que só leva em consideração mostrar seu carro para aparecer. Estou falando de algo que há tempo vem morrendo, acabando, sendo esquecido, deixado de lado em detrimento de "likes", "curtidas" e outras formas de bajulações explicidas.

A tal "cena automotiva" vem tomando lugar da amizade e da vontade de ajudar. Conversava com um amigo há algum tempo sobre a mediocridade que tomava conta dos fóruns e das timelines. Aquela coisa bacana que víamos há uns cinco anos ou mais vem sendo devorada por ostentações desnecessárias e zoações desmedidas. Isso já encheu o saco de muita gente que, assim como eu, já não tem mais paciência para atualizar suas páginas com o andamento de seus projetos, não frequenta, não alimenta e não compartilha nos fóruns as boas soluções que encontra para seus problemas automotivos corriqueiros.

Cruzar os caminhos com o de pessoas como o amigo Alencar, me faz refletir sobre algumas coisas, posturas e determinações. O simples fato da viagem não o mais importante, mas como se chega lá e para quê se chega é o que reacende o desejo de colocar aquele velho projeto de pagar umas cervejas pelo Brasil afora de volta à mesa de planejamento!

Obrigado pela lição, amigo.
#CHORAMORAES

: : [TEASER] Volkswagen Gol 1.9 - Correct Period : :

Montar um projeto automotivo envolve garra, dedicação, comprometimento e muita, mas muita paciência.

Ainda assim, a vida por vezes nos prega peças que nos fazem desanimar e querer desistir.

Com o amigo Fernando Gorks não foi diferente, mas ele mostrou resiliência quando o chão parecia ruir debaixo dos pés.




Com a ajuda de seu pai e com experiência para ensinar seu filho, Fernando hoje aproveita cada segundo a bordo de seu Volkswagen Gol 1.900 cc, matando a saudade do pai que já se foi e lá de cima olha pela sua família.

Personalizado apenas com peças disponíveis no período de produção do veículo, o chamado correct period faz deste VW um carro especial não só pela personalização, mas também pela sua história.

Confira a matéria completa nas próximas edições da Revista Tech Speed

: : VW ~LeGol~ 2.0 8v Turbo : :


Se fosse possível deixar um recado para a eternidade, eu diria: Preparação não é algo que se faz da noite para o dia. É preciso empenho, dedicação, concentração, leitura, interesse, vontade, resiliência e até mesmo alguns trocados. Já tarimbado deste exercício por cerca de 08 anos com seu ex-VW Voyage Turbo, Glaydson Sousa já sabia de cor e salteado o que eram os perrengues de uma preparação objetiva. Acertos, mudanças, quebras, adaptações... tudo isso torna-se atrelado ao cotidiano e, além de tudo, é preciso paciência.

Enquanto desenvolvia seu carro, de longe, seu amigo Henrique Lambert, do Rio de Janeiro, desenvolvia outro projeto e pela internet Glaydson acompanhava. Quando o Autódromo de Jacarepaguá/RJ foi definitivamente fechado para as obras Olímpicas e o carro, que havia sido completamente re-montado para as pistas, ficou sem sentido nas mãos de Lambert. Ainda assim o projeto continuou por cerca de mais um ano, até que as prioridades de Lambert foram mudadas e o VW Gol branco que pululava os sonhos de Glaydson foi a venda. E agora? Desistir de um carro que você, literalmente, investiu sangue, suor e dinheiro durante 12 anos para tentar arrematar um projeto que havia sido acompanhado meticulosamente e era um exemplo de preparação? E a diferença de valor entre os carros? Às vésperas do casório, Glaydson ficou atordoado. Foi quando Lambert confidenciou que poderia facilitar o pagamento para o amigo e este então tomou a dose de coragem que faltava. Comunicou à noiva da empreitada e, como boa cônjuge, compreensivelmente incentivou Glaydson a vender o Voyage. Veio o casamento, e algumas semanas depois o carro já estava à porta da nova casa do casal.



Preparado pela M2Racing, no Rio de Janeiro, o VW Gol conta com motor AP 2.0 com cabeçote de fluxo cruzado de 8 válvulas. Pistões Iapel de 83,5 mm e bielas SPA agora são forjadas e contam com o suporte de anéis Cofap e bronzinas Metal Leve para manter a parte móvel em ordem. O virabrequim foi aliviado e balanceado pela Retifort de São Paulo, enquanto o cabeçote era minuciosamente esculpido pela Pro Heads. Molas, pratos e válvulas são da Iskenderian de maior diâmetro para auxiliar no fluxo ordenado pelo comando Samacar de 296°/350T. Uma bela tampa de válvulas Moroso dá o toque final no conjunto.

Uma turbina Holset HX-40 (.60/.82) empurra o ar admitido sob 1,0 Bar de pressão, regulado por uma wastegate Macktech MT400, até um coletor de admissão com plenum da Tete Racing que desemboca numa TBI de 70 mm e o excesso de ar admitido é devolvido à atmosfera por meio de uma válvula blow off SPA Turbo. O coletor de escape é um SPA para turbo pulsativo que recebeu banho cerâmico. A parte quente é despejada por um escape de 3" que acaba ao pé da parede de fogo no cofre. Folhas de ouro revestem a admissão e boa parte do cofre do motor. Além de embelezar o cofre, a dissipação do calor gerado pela usina é ótima, além do quê, o ronco é apaixonante!






Todas as conexões são FTX tipo AN e contam com mangueiras do tipo aeroquip (revestidas em malha de aço) para evitar vazamentos. Um reservatório de vapor de óleo foi adicionado, mas deve ser substituído em breve por outro com retorno de óleo para o cárter de 7 litros da FuelTech para evitar acúmulos indesejados. Outro exagero comedido ocorre na refrigeração com um enorme radiador SPA Turbo de 7 litros.

O álcool do tanque é sugado e enviado a um surge tank e de lá é enviado para o dosador Aeromotive por meio de duas bombas Mercedes de 12 Bar sob 3,5 Bar de pressão. Para não faltar combustível, duas flautas contem bicos Siemens Deka saciam a sede. A primeira utiliza quatro bicos de 60 lbs, enquanto a segunda utiliza bicos de 80 lbs. A ignição conta com bobina MI para enviar os pulsos através dos cabos de velas MSD de 8.8 mm até as velas de Iridium. O módulo eletrônico que controla toda o conjunto é um FuelTech RacePro 1F.






São cerca de 340 cv gerados pelo AP 2.0 a cerca de 7.600 Rpms, que são domados pela embreagem cerâmica de 1.200 lbs da FF Embreagens atrelada ao câmbio inteiramente escalonado pelo Sapinho de 1ª até a 5ª marcha de dentes retos. A troca de marchas é feita por uma alavanca A&G com trambulador de engate rápido. Para evitar destracionadas indesejadas, um blocante Torsen trabalha para impedir a perda de tempo. "A relação de marcha que veio no câmbio é uma coisa fantástica. Toda a relação é jogada pra frente, por exemplo: a 1ª vai há uns 70 km/h, só que daí as outras são bem próximas uma das outras. Passar da quarta pra quinta é orgasmático. Ele não é um carro que lixa marcha e caminha bem rápido. Como possui engate rápido, consigo ir de 2ª até a 5ª sem o uso da embreagem no modo hardcore, é fantástico." - comemora Glaydson.


A suspensão conta com coilovers (molas com amortecedor passando por dentro dos elos) da Impacto Amortecedores. As molas com 550 lbs na dianteira e 750 lbs na traseira, enquanto os amortecedores contam com 80% a mais de carga para evitar a rolagem da carroceria. Todas as buchas possíveis da suspensão foram substituídas por poliuretano, desde as de bandeja até as de apoio dos amortecedores. O carro é travado! Barras estruturais foram adicionadas na dianteira, torres e caixas de ar, que ajudam a evitar a torção, além de barras próprias entre as torres dianteiras e traseiras. As belas rodas Weds Racing de 7,0x17" foram calçadas por pneus Toyo R888 de medidas 205/40-17". Elas são necessárias para cobrir os grandes discos de freios de 312 mm na dianteira. A traseira utiliza tambores de Saveiro G4 que possuem maior diâmetro e capacidade de frenagem.




O espartano interior conta com bancos Sparco EVO e cintos da mesma marca de quatro pontos de fixação. O volante de ótima pegada é um Sparco Lap5 e a alavanca de engates curtos da A&G completam o pacote básico. Para monitoramento do conjunto, o painel original foi substituído por manômetros individuais da ODG, contendo informações de pressão de combustível, mistura ar/combustível/pressão da turbina e pressão do óleo. Ao centro, um cronômetro mostra bem para o que o carro serve: PISTA! Ao lado, um tacômetro AutoMeter SportComp de 5". No painel central observa-se um monitor de pressão dos pneus e logo abaixo um conjunto interessante: Chaves gerais, a central eletrônica de gerenciamento, e o medidor do nível de combustível.







Sem muito envolvimento com o carro, logo de cara Glaydson conseguiu fechar uma volta no Autódromo Internacional Nelson Piquet em 2:28:255 durante um dos trackdays organizados pelo grupo Distrito Racing. Pouco mais de um mês e com mais alguns ajustes feitos na PH Motorsport, o carro virou 2:23:852 ainda muito arisco e enfrentando trânsito na pista. Agora é esperar chegarem o intercooler e a barra anti-torção inferior da A&G que já estão encomendadas. Logo mais, uma IE mais atualizada, freios Wilwood e gaiola interna para fazer o "LeGol" chegar aos 2:19:XXX conforme expectativa do preparador.


Desistir de um projeto de mais de uma década não é nada fácil dado todo o apego, mas tenho certeza que a satisfação de baixar seu próprio tempo em um dos autódromos mais técnicos do mundo a bordo de um carro que foi capaz de mexer com seus sonhos valeu cada centésimo de segundo.

Matéria publicada originalmente na Revista CarStereo #183 de Novembro de 2014